Animação Festa no Céu encanta pela beleza

Inspirada na tradição mexicana do Dia de Los Muertos (festividade equivalente ao nosso Dia de Finados), a animação Festa no Céu chega aos cinemas com visual encantador e cores alegres, além de trazer um roteiro bem desenhado e recheado de influências culturais de diversos povos. Desde a seleção da trilha sonora até a escolha do traço a ser seguido, o carinho de toda a produção salta aos olhos dos espectadores como um trabalho digno de ter Guillermo del Toro no time de criadores.

A guia Mary Beth nos introduz à história do povoado de San Angel e leva um grupo de crianças irrequietas para uma grande viagem pela história cultural do México: ela conduz os pequenos por uma passagem secreta no museu em que trabalha e mostra a eles o Livro da Vida, exemplar que guarda memórias importantes da humanidade. Com bonecos de madeira articulados, Mary dá vida ao casal Catrina (ou simplesmente La Muerte) e Xibalba, deuses que guardam diferentes lugares do Reino dos Mortos e que são responsáveis por uma importante aposta que muda o destino dos inseparáveis amigos de infância Joaquin, Manolo e Maria.

Embora os três personagens anteriores sejam vitais à narrativa e tenham momentos de destaque individuais, o jovem Manolo conquista o papel central na trama: entre ganhar o coração de sua amada, ele precisa decidir se vai seguir os passos de toda a família Sanchez e ser um toureiro de sucesso ou se abandonará o seu passado para se dedicar ao violão e fazer parte de um grupo de mariachis. E mesmo carregando espadas e um instrumento nas costas, a complexidade psicológica de Manolo é extremamente bem trabalhada para não deixar a história cansativa e o desenrolar dos acontecimentos é original o bastante para cativar a atenção dos espectadores do começo ao fim.

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As músicas, dessa forma, funcionam como importantes aliadas neste processo e dão o tom desejado para cada cena, seja ela mais alegre ou melancólica. Além disso, a decisão de misturar canções originais do filme com versões de artistas mais pop, como Mumford & Sons e Radiohead, ajudam a envolver o público na atmosfera desejada e aproximam ainda mais os espectadores do drama vivido pelos personagens. Assim, Manolo mostra a sua versão mexicana para Creep enquanto faz uma serenata para Maria e reforça o sentimento de dúvida sobre o próprio futuro ao cantar os versos What the hell am I doing here?/ I don’t belong here.

E por ser um filme que mistura elementos culturais mais antigos (como a tradição de enfeitar os túmulos dos que já se foram com flores e comidas no Dia de Los Muertos) com visões de mundo mais modernas, não é grande surpresa que a protagonista Maria seja uma mulher independente e mais distante do modelo de boa moça submissa. Além de ser uma ativista dos direitos dos animais e não se apaixonar fácil pelos seus pretendentes, ela tem uma breve discussão com Joaquin por ele achar que um dos papeis da mulher é servir a apoiar o homem.

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Por fim, a produção é bem sucedida ao trazer uma visão diferente e mais otimista da morte: enquanto os brasileiros a encaram como um momento difícil a ser superado (provavelmente por causa das bases cristãs que pregam a não existência de vida após a morte) e os norte-americanos trazem impressões mais fúnebres (por causa das festividades do Halloween que associam bruxas, zumbis e fantasmas ao feriado), os mexicanos acreditam que sempre há festas e comemorações no Reino dos Mortos e carregam consigo a lembrança de seus entes queridos para mantê-los sempre vivos em suas memórias, resgatando todas essas crenças durante o Dia de Los Muertos.

Assim, enquanto são deslumbrados por imagens riquíssimas e coloridas, os espectadores de todas as idades são levados por uma importante viagem cultural e certamente deixarão os cinemas com uma visão diferente do que pode existir depois que deixamos o mundo dos vivos.

Fonte: http://playtv.com.br/cinema/artigo/critica/the-book-of-life

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